Fevereiro de 2014
Quando te conheci amor, eras apenas vulto furtivo. Segredo do mundo, guardado a seis chaves e meia. A parte que faltava foi o suficiente para eu te encontrar.
Éramos amigos, daqueles amigos inocentes, reflexos duma mesma alma, amigos sem imaginarmos que o futuro nos esperava impaciente, para nos dizer que não éramos amigos. Não. Éramos amantes sem sabermos, amantes inconscientes. As nossas almas entrelaçadas faziam já amor, enquanto nós, jovens inocentes, alheios ao que verdadeiramente nos unia, jogávamos à bola ao sair da escola, íamos à guna no eléctrico até à Foz ver o mar e fazíamos os tpc’s mergulhados entre a areia e a espuma.
Ficávamos ali até ao pôr-do-sol, a falar de tudo, de nada, de assuntos sérios, de coisas parvas, de amores que íamos tendo, dos dramas familiares, do mundo, dos grãos de areia.
Depois um outro eléctrico, e era já hora de ir para casa, morávamos perto, deixavas-me à porta, com a promessa de vires a horas na manhã seguinte, para podermos ir juntos para a escola. A pé como tanto gostávamos, para termos tempo de conversar mais ainda, porque não havia palavras gastas entre nós amor, nunca nos faltaram palavras. Anos de amizade, cumplicidade, sem nunca imaginarmos que um dia iríamos ser muito mais que amigos, sem sabermos o sentimento que nos unia (não sabíamos, pois não?).
E eis que tudo muda, não sei qual foi o momento, não sei em que dia aconteceu, não sei como aconteceu, eras já o meu amante, já não eras o melhor amigo, já não eras o passado calmo e familiar, eras presente pungente, futuro febril e desconhecido.
Eras tu, como te vejo agora, deitado ao meu lado enquanto te escrevo. Eras tu.
Como é que não te vi (assim, como te vejo agora) durante tanto tempo?
Eras segredo bem guardado amor, a seis chaves e meia.
Amor omnia vincit
J.S.R.
Porque todo o ser humano deveria receber uma carta de amor.
Porque é urgente o amor.