Monday, 17 February 2014

Carta nº 5 (Rua Sá Noronha)

Fevereiro de 2014

Quando te conheci amor, eras apenas vulto furtivo. Segredo do mundo, guardado a seis chaves e meia. A parte que faltava foi o suficiente para eu te encontrar.

Éramos amigos, daqueles amigos inocentes, reflexos duma mesma alma, amigos sem imaginarmos que o futuro nos esperava impaciente, para nos dizer que não éramos amigos. Não. Éramos amantes sem sabermos, amantes inconscientes. As nossas almas entrelaçadas faziam já amor, enquanto nós, jovens inocentes, alheios ao que verdadeiramente nos unia, jogávamos à bola ao sair da escola, íamos à guna no eléctrico até à Foz ver o mar e fazíamos os tpc’s mergulhados entre a areia e a espuma.

Ficávamos ali até ao pôr-do-sol, a falar de tudo, de nada, de assuntos sérios, de coisas parvas, de amores que íamos tendo, dos dramas familiares, do mundo, dos grãos de areia.

Depois um outro eléctrico, e era já hora de ir para casa, morávamos perto, deixavas-me à porta, com a promessa de vires a horas na manhã seguinte, para podermos ir juntos para a escola. A pé como tanto gostávamos, para termos tempo de conversar mais ainda, porque não havia palavras gastas entre nós amor, nunca nos faltaram palavras. Anos de amizade, cumplicidade, sem nunca imaginarmos que um dia iríamos ser muito mais que amigos, sem sabermos o sentimento que nos unia (não sabíamos, pois não?).

E eis que tudo muda, não sei qual foi o momento, não sei em que dia aconteceu, não sei como aconteceu, eras já o meu amante, já não eras o melhor amigo, já não eras o passado calmo e familiar, eras presente pungente, futuro febril e desconhecido.

Eras tu, como te vejo agora, deitado ao meu lado enquanto te escrevo. Eras tu.

Como é que não te vi (assim, como te vejo agora) durante tanto tempo?

Eras segredo bem guardado amor, a seis chaves e meia.

Amor omnia vincit

J.S.R.

Porque todo o ser humano deveria receber uma carta de amor.

Porque é urgente o amor.

Thursday, 6 February 2014

Carta nº 4 (Rua João de Barros)

Fevereiro de 2014

Resolvi escrever-te, porque as palavras escritas são escudo que me protege de embaraço. Declaro-me ao papel e ele dá-te o recado. E eu espero resposta,ansiosa, expectante.

É um jogo de sorte, o amor. Amarmos alguém e essa pessoa sentir o mesmo, num mundo de 7 biliões de pessoas… É quase inacreditável. Acaso, destino, intervenção divina, química… O que quer que escolhamos acreditar, não há uma só definição de amor. Cada um o sente de forma diferente. Ninguém pode realmente saber o que vai dentro do outro. Eu, por exemplo, eu amo obcecadamente, excessivamente, ebriamente. Chego a extinguir-me no outro, por vezes.

E tu, tu chegaste assim do nada, arrebataste-me, afogaste-me em beijos lúbricos, carícias sôfregas, olhares inebriantes.

Encaixaste em mim, o meu corpo ebúrneo, o teu corpo plúmbeo, mesclados, tornados num só.

Amor não tem cor, a alma é incolor.

A tua pele áspera, marcada pela vida, as tuas mãos calejadas, os teus olhos negros, de um negrume que me engolfa, a tua boca grossa que me conhece os cantos, que me beija os poros e diz o meu nome baixinho, sussurrado como se fosse um segredo bem guardado.

E é nesses momentos que partilhamos, que compreendo que o amor é mutável, não te amo hoje como te amava ontem, E amanhã, amanhã amar-te-ei se possível mais, talvez menos se hoje nos zangarmos, talvez na mesma medida se não nos virmos.

E contigo subo e desço, ascendo e caio, encontro-me e perco-me. Somos tudo e nada, somos amor e ódio, somos sim e não, somos a espada e a parede.

Levas-me ao céu, atiras-me ao chão e depois apanhas o resto de mim, recolhes-me. Adoentas-me e curas-me. És doença, vacina, cura e antídoto. És tudo, és totalidade. Luz e escuridão. E deixas-me assim, lânguida, sem forças, exaurida. Vazia de mim e cheia de ti.

Agora diz-me, poderia dizer-te tudo isto a olhar-te nos olhos? Esses olhos negros cor de ébano?

Não, faltar-me-ia o ar e terias que salvar-me com um beijo.

Amor omnia vincit

J.S.R.

Porque todo o ser humano deveria receber uma carta de amor.

Porque é urgente o amor.

Tuesday, 4 February 2014

Carta nº 3 (Avenida da França)

Fevereiro de 2014

São os teus beijos languescentes amor. São eles que me deixam sem forças, desterrada, exilada de mim, sem norte.

Procuro a tua boca como quem procura alimento, os teus beijos são os nutrientes que o meu corpo exige, o teu abraço o cobertor que me envolve, o teu olhar o mar onde mergulho e lavo a alma, o teu cheiro a minha bússola, os teus dedos piratas no meu navio, o prazer o nosso tesouro.

São dias sem te ver, horas intermináveis, minutos acutilantes, segundos perpétuos em que não mergulhamos juntos no mar de seda e nos deixamos afogar entre gemidos suplicantes e pingos de suor que cintilam nos nossos corpos desesperados.

Quando te verei?

Sinto-me um viciado sem a sua droga, abandonado à sua sorte, a desejar mais uma dose, só mais uma dose, pelo menos mais uma dose.

Vem e injecta-me prazer nas veias, na carne, na alma. Beija-me os cabelos, beija-me os olhos, beija-me o nariz, beija-me a boca, beija-me os braços, beija-me as mãos, beija-me as pernas, beija-me os pés, beija-me o ventre, beija-me as costas, beija-me as omoplatas, beija-me os seios, beija-me o sexo amor, beija-me só, beija-me apenas.

São dias assim, em que penso só nos teus beijos, são alento e desalento, alimento e veneno, ânsia e pavor. Anseio por eles, mas tenho medo, medo do quanto preciso deles, do quanto preciso de ti.

Amor omnia vinvit

J.S.R.

Porque todo o ser humano deveria receber uma carta de amor.

Porque é urgente o amor.

Monday, 3 February 2014

Carta nº 2 (Rua de João Rodrigues Cabrilho)

Fevereiro de 2014

Enrubesces-me. Quando me olhas, esvaio-me, quando me tocas, incandesço-me. Sou feita de súplicas quando estamos juntos. Tens-me as partes, tens-me o todo, tens-me do lado de fora e do lado de dentro, tens-me traça para a tua luz, persigo-te até te apagares e me deixares na escuridão. Vês-me a alma? Vês os rasgos na carne da alma por dentro, feitos pela fúria com que me amas?

Às vezes tenho medo da quantidade de amor que nos une. A partir de quanto é que é amor de mais? Haverá um índice de amor corporal? Terei amor a mais para o meu corpo? Tenho a certeza que sim, sou obesa de amor. E ele depois transborda, e invade tudo o resto. E és tu, és tu que me dás o alimento que me engorda a alma.

És tu meu amor, és o meu amor à porta do prédio, és o meu amor nas escadas, no escuro do portal, és o meu amor à porta de casa, és o meu amor no corredor, és o meu amor à porta do quarto, és o meu amor lá dentro, dentro do meu, teu, nosso quarto, és o meu amor na minha, tua, nossa cama, és o meu amor na janela quando recitamos poemas à lua com as estrelas como candelabros.

Gastas-me, usas-me, estilhaças-me.

A forma como me abraças, a forma como me apertas, a forma como me beijas, a forma como me reclamas.

Não posso, não quero ser incomodada por ninguém, só tu me podes incomodar.

Só tu me vês o lado de dentro da alma, o lado do avesso, onde estão as costuras amor, onde me revelo, só para ti, porque me conheces a linha e se eu me descoser por dentro, tu sabes dar-me um ponto e pôr-me como nova.

Amor omnia vincit

J.S.R.

Porque todo o ser humano deveria receber uma carta de amor.

Porque é urgente o amor.

Carta nº 1 (Rua de Miguel Bombarda)

Fevereiro de 2014

Afogo-me nestas tardes sem ti, horas silenciosas ensurdecem-me a alma. Lembro
aquelas noites ruidosas na alvorada da nossa história. A indecência do pensamento, a inocência do toque. Perdidos numa mescla de dois corpos inconscientes, a urgência, a sofreguidão, a ânsia. E a beleza, oh, a beleza dos momentos passados em completa união de corpos e de almas.

Agora, nestas tardes nostálgicas contemplo o passado que foi presente, deixo cair a mão no lugar vazio da cama e relembro, é esse o meu poder. É assim que escapo à realidade. E tu, tu estás longe, amor.

Eras chão que me segurava. E eu caí. Estou sem chão, mas resisto. Seguro-me por um fio, é a minha mão que me mantém suspensa, e não caio porque te amo. Amor é combustível, é o que nos lança no desconhecido, é o que nos enruga a pele, afoga o rosto e liberta a alma.

Reabilito-me de ti, intoxicaste-me e eu transbordei uma pessoa que não eu. Desconstruíste-me e montaste-me ao contrário. Fizeste de mim tela vazia para pintares a teu bel-prazer. E eu deixei-me ser pintada, dei controlo às tuas mãos para que me criassem e recriassem. E amor, criámos uma obra de arte entre os dois, efémera e condenada.

E no fim, sequestrei a paleta e decidi pincelar-me sozinha, recriar-me e descobrir-me.

A pintura saltou da tela e matou o pintor.

Já não caibo em ti e no rectângulo que me destinaste.

Nunca teria aprendido a voar, se não me tivesses pintado asas.

Amor omnia vincit

J.S.R.

Porque todo o ser humano deveria receber uma carta de amor.

Porque é urgente o amor.