Fevereiro de 2014
Afogo-me nestas tardes sem ti, horas silenciosas ensurdecem-me a alma. Lembro
aquelas noites ruidosas na alvorada da nossa história. A indecência do pensamento, a inocência do toque. Perdidos numa mescla de dois corpos inconscientes, a urgência, a sofreguidão, a ânsia. E a beleza, oh, a beleza dos momentos passados em completa união de corpos e de almas.
Agora, nestas tardes nostálgicas contemplo o passado que foi presente, deixo cair a mão no lugar vazio da cama e relembro, é esse o meu poder. É assim que escapo à realidade. E tu, tu estás longe, amor.
Eras chão que me segurava. E eu caí. Estou sem chão, mas resisto. Seguro-me por um fio, é a minha mão que me mantém suspensa, e não caio porque te amo. Amor é combustível, é o que nos lança no desconhecido, é o que nos enruga a pele, afoga o rosto e liberta a alma.
Reabilito-me de ti, intoxicaste-me e eu transbordei uma pessoa que não eu. Desconstruíste-me e montaste-me ao contrário. Fizeste de mim tela vazia para pintares a teu bel-prazer. E eu deixei-me ser pintada, dei controlo às tuas mãos para que me criassem e recriassem. E amor, criámos uma obra de arte entre os dois, efémera e condenada.
E no fim, sequestrei a paleta e decidi pincelar-me sozinha, recriar-me e descobrir-me.
A pintura saltou da tela e matou o pintor.
Já não caibo em ti e no rectângulo que me destinaste.
Nunca teria aprendido a voar, se não me tivesses pintado asas.
Amor omnia vincit
J.S.R.
Porque todo o ser humano deveria receber uma carta de amor.
Porque é urgente o amor.
Amor, amor...
ReplyDelete